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MAPUTO, Mozambique - A potential increase in cases of gender-based violence during the COVID-19 pandemic has called for innovative communication channels to reach the most vulnerable women and girls, in a country where one in three women suffer violence during their lives. 

The story of Beatriz*, a 47-year-old survivor of domestic abuse, is a good example of how civil society organizations supported by the European Union-funded Spotlight Initiative in Mozambique are using instant messaging apps to engage with women and girls when they need it most. 

“To my husband, I am useless. I cannot voice my opinions. He takes my entire salary to spend as he pleases. He is domineering, he despises and humiliates me. This hurts too much. Please help me!” - Beatriz*, 47, survivor of domestic abuse

Disclosing violence 

“To my husband, I am useless. I cannot voice my opinions. He takes my entire salary to spend as he pleases. He is domineering, he despises and humiliates me. This hurts too much. Please help me!” 

This was a distressed message sent by Beatriz to a group in an instant messaging app. The group was created by Kutenga, a Spotlight Initiative-funded organization, as a follow up to a training session on gender-based violence prevention in which Beatriz took part.

In this group, which works as a discussion forum, different topics related to gender-based violence are raised every few weeks. Prompted by the topics, participants discuss and share experiences. 

When the topic of “toxic masculinity” was raised, Beatriz immediately related to it and decided to type about her ordeal.

Engaging with survivors

As soon as Kutenga activists received her message, they understood the oppressive conditions in which Beatriz was living. They contacted her privately and when COVID-19 prevention restrictions were eased, they visited Beatriz at her home. They discussed ways for Beatriz to approach her husband and tried to invite him to attend a training session just for men.

He did not accept the invitation but agreed to a phone call. During the call, activists used tailored language to talk about sensitive topics such as gender equality, laws, gender-based violence and the many forms it can take - concepts that Beatriz’ husband heard for the first time. They also helped him understand that the Government of Mozambique as well as local authorities in his area are working to eliminate violence against women and girls and to change discriminatory behaviour rooted in toxic masculinity. 

The call ended on a good note and little by little, his attitude started to change.

“I was willing to leave him. But it seems that your intervention has changed him. He has stopped being abusive and now even apologizes if he raises his voice. But I will let you know if this changes again,” wrote Beatriz in another message.

Staying connected

Communicating through an instant messaging app has had a powerful effect in Beatriz’s life. But it has helped many more women and girls feel safe and connected, especially during the pandemic.

“I was willing to leave him. But it seems that your intervention has changed him. He has stopped being abusive and now even apologizes if he raises his voice. But I will let you know if this changes again” - Beatriz*, 47, survivor of domestic abuse

For instance, when schools closed, Spotlight Initiative civil society partners created WhatsApp groups to ensure that students stayed connected, informed and vigilant about vulnerable girls and young women at risk of experiencing violence. They identified focal points among the students who refer cases to civil society organizations and response services.

While instant messaging does not replace official communications or statements by government institutions, it is a sustainable and flexible tool to speed up and coordinate responses to reported cases of violence. All users agree and abide by codes of conduct to protect confidentiality of the information shared.

During the COVID-19 pandemic, Spotlight Initiative partners have reached more than 1 million people, over 500,000 of whom were women and girls, through community radios, national TV and radio stations, the use of megaphones and instant messaging tools. This is part of the government-led effort to ensure that during the pandemic, women and girls have access to life-saving information, support and services, leaving no one behind.

As for Beatriz, she has recovered control of her life and gained confidence to negotiate more equality within her relationship. Beatriz is now empowered with knowledge and, just as importantly, she is no longer alone: she knows she can quickly message Kutenga if she ever needs help again.

*name was changed

By Leonor Costa Neves with reporting by Aníbal Cossa

Language: 
Portuguese, International
Title: 
Activistas apoiam sobreviventes de violência através de aplicativos de mensagens instantâneas
Body: 

MAPUTO, Moçambique - Um potencial aumento nos casos de violência baseada no género durante a pandemia da COVID-19 exigiu a adopção de canais de comunicação inovadores para alcançar as mulheres e raparigas mais vulneráveis, num país onde uma em cada três mulheres sofre violência ao longo da vida.

A história da Beatriz *, de 47 anos, uma sobrevivente de violência doméstica, é um bom exemplo de como as organizações da sociedade civil apoiadas pela Iniciativa Spotlight – um programa financiado pela União Europeia – estão a recorrer a aplicativos de mensagens instantâneas para interagir com mulheres e raparigas em Moçambique, quando elas mais precisam. 

Denunciando a violência

“Para o meu marido, eu sou inútil. Não posso expressar as minhas opiniões. Ele leva todo o meu salário para fazer o que bem entender. Ele é dominador, despreza-me e humilha-me. Dói demais! Socorro."

“Para o meu marido, eu sou inútil. Não posso expressar as minhas opiniões. Ele leva todo o meu salário para fazer o que bem entender. Ele é dominador, despreza-me e humilha-me. Dói demais! Socorro." - Beatriz, 47 anos, sobrevivente de violência doméstica

Esta foi uma mensagem angustiada enviada pela Beatriz, para um grupo num aplicativo de mensagens instantâneas. O grupo foi criado pela Kutenga, uma organização financiada pela Iniciativa Spotlight, no seguimento de uma capacitação sobre prevenção da violência baseada no género, na qual a Beatriz participou.

Nesse grupo, que funciona como um fórum de discussão, são lançados periodicamente diferentes tópicos relacionados com a violência baseada no género. Tendo os tópicos como ponto de partida, os participantes discutem e partilham experiências.

Quando o tema “masculinidade tóxica” foi lançado no grupo, a Beatriz identificou-se imediatamente com o mesmo, e decidiu escrever sobre a sua condição.

Interagindo com sobreviventes

Assim que os activistas de Kutenga receberam a mensagem, compreenderam a opressão que Beatriz vivia. De seguida, contactaram-na em privado e, quando as restrições de prevenção da COVID-19 foram suavizadas, visitaram a Beatriz na sua casa. Durante a visita, aconselharam a Beatriz sobre como abordar o seu marido, e tentaram convidá-lo para uma sessão de capacitação só para homens.

Embora não tenha aceite o convite, o marido da Beatriz concordou com um telefonema. Durante a chamada, os activistas usaram uma linguagem adaptada para falar sobre temas delicados, tais como como igualdade de género, leis, violência baseada no género e as muitas formas que esta pode assumir – conceitos que o marido de Beatriz ouviu pela primeira vez. Os activistas também o ajudaram a compreender que o Governo de Moçambique, bem como as autoridades locais na sua área, estão a trabalhar para eliminar a violência contra mulheres e raparigas e para mudar comportamentos discriminatórios enraizados na masculinidade tóxica.

A chamada terminou num tom positivo e, aos poucos, a atitude do marido foi mudando.

“Vontade de deixar o meu marido não me faltou. Mas a vossa intervenção ajudou-me a mudá-lo. Ele já não é grosseiro e quando eventualmente me responde mal, agora tem a gentileza de pedir desculpas. Mas qualquer mudança negativa, aviso-vos.” – escreveu Beatriz noutra mensagem.

Mantendo o contacto

Comunicar através de um aplicativo de mensagens instantâneas teve um efeito poderoso na vida da Beatriz. Mas também ajudou muitas mais mulheres e raparigas a sentirem-se seguras e conectadas, especialmente durante a pandemia.

“Vontade de deixar o meu marido não me faltou. Mas a vossa intervenção ajudou-me a mudá-lo. Ele já não é grosseiro e quando eventualmente me responde mal, agora tem a gentileza de pedir desculpas. Mas qualquer mudança negativa, aviso-vos.” - Beatriz, 47 anos, sobrevivente de violência doméstica

Por exemplo, durante o período de encerramento das escolas, os parceiros da sociedade civil da Iniciativa Spotlight criaram grupos de WhatsApp para garantir que os alunos e alunas permanecessem conectados, informados e vigilantes sobre as raparigas mais vulneráveis ​​e em risco de sofrer violência. Estas organizações identificaram pontos focais entre os alunos, que encaminham casos para organizações da sociedade civil e serviços de resposta.

Embora as mensagens instantâneas não substituam as comunicações ou declarações oficiais por instituições governamentais, estas são uma ferramenta sustentável e flexível para agilizar e coordenar as respostas aos casos denunciados de violência. Todos os utilizadores concordam e cumprem com códigos de conduta estabelecidos para proteger a confidencialidade das informações compartilhadas.

Durante a pandemia da COVID-19, os parceiros da Iniciativa Spotlight já alcançaram mais de um milhão de pessoas, entre as quais mais de 500.000 mulheres e raparigas, através de rádios comunitárias, emissoras nacionais de TV e rádio, uso de megafones e aplicativos de mensagens instantâneas. Tudo isto integra o esforço liderado pelo governo para garantir que, durante a pandemia, as mulheres e raparigas tenham acesso a informações, apoio e serviços que salvam vidas, sem deixar ninguém para trás.

Quanto à Beatriz, ela recuperou o controlo sobre a sua vida e ganhou confiança para negociar mais igualdade no seu casamento. Ela agora está empoderada com conhecimento e, igualmente importante, não está mais sozinha: ela sabe que pode enviar uma mensagem rapidamente para a Kutenga, se um dia voltar a precisar de ajuda.

*o nome foi alterado

Por Leonor Costa Neves, com reportagem por Aníbal Cossa

Image caption: 

Foto apenas para fins ilustrativos. O uso de ferramentas digitais, tais como aplicativos de mensagens instantâneas, ajuda a alcançar as mulheres e raparigas mais vulneráveis ​​durante a pandemia da COVID-19. Foto: UNICEF Moçambique